15h00

Arábia Saudita enfim vai abrir capital da maior petroleira do mundo

Após três anos de suspense, a Arábia Saudita enfim anunciou que irá vender ações de sua gigante petroleira estatal, a Saudi Aramco, empresa responsável por 11% da produção diária de óleo no mundo.

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Arábia Saudita enfim vai abrir capital da maior petroleira do mundo

Não há hipérbole suficiente para descrever os números da Aramco. Ela extrai 10 milhões de barris de petróleo por dia, é a empresa mais rentável do mundo (US$ 111 bilhões de lucro líquido em 2018, ou cerca de R$ 444 bilhões), controla a segunda maior reserva de petróleo mundial (cerca de 270 bilhões de barris) e vale entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões (R$ 8 trilhões, maior do mundo, mais que o PIB anual do Brasil, de R$ 6,8 trilhões).

Para comparar, a Petrobras produz 3 milhões de barris diários de óleo e gás, vale cerca de R$ 370 bilhões e teve seu primeiro lucro líquido em quatro anos, após a crise decorrente das descobertas de corrupção da Operação Lava Jato, em 2018: R$ 25,7 bilhões. O Brasil tem a 15ª reserva mundial de petróleo, 12,7 bilhões de barris.

A IPO (oferta pública inicial, na sigla inglesa) deverá ser a maior do mundo, superando a empresa de e-commerce chinesa Alibaba, que levantou US$ 22 bilhões (R$ 88 bilhões hoje) em um dia em 2014.

Mas nem tudo é triunfalismo com anúncio feito em Riad pelo presidente da Aramco, Yasir al-Rumayyan, neste domingo (3).

Desde que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman assumiu o poder “de facto” no reino, em 2016, e anunciou o IPO, a Arábia Saudita passou por uma série de reveses políticos e econômicos.

O país está engajado em uma guerra civil contra rebeldes xiitas no vizinho Iêmen, apoiados pelo seu maior rival no Oriente Médio, o Irã. Desse conflito partiram ataques secundários a petroleiros e, no dia 14 de setembro deste ano, contra instalações de refino da Aramco —cortando a produção da empresa pela metade por muitos dias.

Al-Rumayyan afirmou que a ação não prejudicou o faturamento da empresa este ano, mas os números até aqui fechados da Aramco não facilitam a aferição da assertiva.

Além disso, há uma questão existencial, por assim dizer. A mudança climática decorrente do aquecimento global pode ser contestada por alguns governos, mas no mercado é uma realidade.

Não é casual que a Aramco tenha informado que vai destinar a maior parte do dinheiro que auferir no IPO para um fundo soberano da Arábia Saudita destinado a pesquisas de energia renovável e inovação, e não para investimentos na própria empresa.

Há uma preocupação social envolvida: apesar de riquíssimo, o reino é altamente desigual e tem um desemprego de nível brasileiro, na casa dos 12%. O governo tem investido pesadamente em opções ao óleo e em empresas de alta tecnologia.

Petróleo responde por um terço da matriz energética do mundo hoje, e a demanda cresce perto de 1,5% ao ano desde o começo da década. Ainda assim, há uma corrida para limpar a economia do carbono.

Práticas arriscadas e poluidoras como o “fracking” (extração de óleo de xisto por meio de tremores controlados de terra) ajudaram a liberar os Estados Unidos de sua dependência total do Oriente Médio, mas são consideradas potencialmente insustentáveis no longo prazo.

A própria Aramco destina US$ 600 milhões (R$ 2,4 bilhões) anuais para desenvolvimento de alternativas e tem propagandeado foco renovado em petroquímica, já que a demanda nesse setor tende a aumentar. Analistas veem um mercado de hidrocarbonetos com menos atores e mais específico.

Por fim, há a competição vinda de lugares como a Venezuela, maior detentora de reservas do mundo e com uma extração baixíssima dada a crise contínua do país, e o Brasil, como o renovado interesse pelo rentável petróleo do pré-sal explicita.

Do ponto de vista político, MbS, como o príncipe é conhecido, tem sofrido uma série de objeções. Apesar de seu programa liberalizante de costumes na monarquia absolutista nominalmente na mão de seu pai, o rei Salman, seu histórico em direitos humanos é deplorável.

Além dos abusos corriqueiros do reino, o príncipe foi implicado diretamente como mandante do assassinato brutal de um jornalista saudita na Turquia, o que ele nega. A guerra no Iêmen também é alvo de muitas críticas por sua violência contra civis

Em setembro, após o ataque contra sua refinaria, a Aramco viu sua nota de crédito cair de A+ para A pela agência Fitch.

Assim, analistas vêm baixando as estimativas de valor da gigante de US$ 2 trilhões para US$ 1,5 trilhão, o que deverá impactar o IPO. Além disso, a oferta não mais será feita em várias Bolsas pelo mundo, e sim na Tadawul, o mercado de ações de Riad.

O IPO ocorrerá depois de uma reunião com investidores no dia 9. A idéia inicial é ofertar entre 2% e 5% das ações da empresa, reservando 50% do lote para cidadãos sauditas —invariavelmente, serão ricos membros da família real que já controla a empresa.

Apesar das restrições, o dinheiro sempre fala mais alto. Combustíveis fósseis ainda são a mola da economia mundial, 160 anos depois do início de sua exploração. E os números suculentos associados à Aramco acabarão suplantando as restrições de investidores.

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